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terça-feira, 8 de março de 2011

A escolha entre o clube e o Caminho



Há dois modelos básicos de igreja. Há os chamados para fora... e os chamados para dentro.

Igreja, de acordo com Jesus, é comunhão de dois ou três... em Seu Nome... e em qualquer lugar...

E mais: podem ser quaisquer dois ou três... e não apenas um certo tipo de dois ou três... conforme os manequins da religião.

Igreja, de acordo com Jesus, é algo que acontece como encontro com Deus, com o próximo e com a vida... no 'caminho' do Caminho.

Prova disso é que o tema igreja aparece no Evangelho quando Jesus e Seus discípulos estavam no 'caminho' para Cesareia de Filipe: um lugar 'pagão' naqueles dias.

Assim, tem-se o tema igreja é tratado no 'caminho' e em direção à 'paganidade' do mundo.

Para Jesus o lugar onde melhor e mais propriamente se deve buscar o discípulo é nas portas do inferno, no meio do mundo!

Não posso conceber, lendo o Evangelho, que Jesus sonhasse com aquilo que depois nós chamamos de 'igreja'.

Digo isto porque tanto não vejo Jesus tentando criar uma comunidade fixa e fechada, como também não percebo em Seu espírito qualquer interesse nesse tipo de reclusão comunitária.

No Evangelho o que existe em supremacia é a Palavra, que tanto estava encarnada em Jesus como era o centro de Sua ação.

No Evangelho nenhuma igreja teria espaço, posto que não acompanharia o ritmo do reino e de seu caminhar hebreu e dinâmico.

Jesus escolhe doze para ensinar... não para que eles fiquem juntos. Ao contrário, a ordem final é para ir...

Enfim... são treinados a espalhar sementes, a salgar, a levar amor, a caminhar em bondade, e a sobreviver com dignidade no caminho, com todos os seus perigos e possibilidade (Lc 10).

No caminho há de tudo. Jesus é o Caminho em movimento nos caminhos da existência. E Seus discípulos são acompanhantes sem hierarquia entre eles.

No mais... as multidões..., às quais Jesus organiza apenas uma vez, e isto a fim de multiplicar pães.

De resto... elas vem e vão... ficam ou não... voltam ou nunca mais aparecem... gostam ou se escandalizam... maravilham-se ou acham duro o discurso...

Mas Jesus nada faz para mudar isto. Ele apenas segue e ensina a Palavra, enquanto cura os que encontra.

Ao contrário..., vemos Jesus dificultando as coisas muitas vezes, outras mandando o cara para casa, outras dizendo que era preciso deixar tudo, outras convidando a quem não quer ir...; ou mesmo perguntando: Vocês querem ir embora?

Não! Jesus não pretendia que Seus discípulos fossem mais irmãos uns dos outros do que de todos os homens.

Não! Jesus não esperava que o sal da terra se confinasse a quatro dignas e geladas paredes de maldade.

Não! Jesus não deseja tirar ninguém do mundo, da vida, da sociedade, da terra... mas apenas deseja que sejamos livres do mal.

Não! Jesus não disse "Eu sou o Clube, a Doutrina e a Igreja; e ninguém vem ao Pai se não por mim".

Assim, na igreja dos chamados para fora, caminha-se e encontra-se com o irmão de fé e também com o próximo que não tem fé... e todos se trata com amor e simplicidade.

Em Jesus não há qualquer tentativa de criar um ambiente protegido e de reclusão; e nem tampouco a intenção de criar uma democracia espiritual, na qual a média dos pensamentos seja a lei relacional.

Em Jesus o discípulo é apenas um homem que ganhou o entendimento do Reino e vive como seu cidadão, não numa 'comunidade paralela', mas no mundo real.

Na igreja de Jesus cada um diz se é ou não é...; e ninguém tem o poder de dizer diferente... Afinal, por que a parábola do Joio e do Trigo não teria valor na 'igreja'?

Na igreja de Jesus... pode-se ir e vir... entrar e sair... e sempre encontrar pastagem.

O outro modo de ser igreja é, todavia, aquele que prevaleceu na história. Nele as pessoas são chamadas para dentro, para deixar o mundo, para só considerarem 'irmãos' os membros do 'clube santo', e a não buscarem relacionamentos fora de tal ambiente.

A comunidade de Jerusalém tentou viver assim e adoeceu!

Claro!

Quem fica sadio vivendo num mundo tão uniforme e clonado?

Quem fica sadio não conhecendo a variedade da condição humana?

Quem fica sadio se apenas existe numa pequena câmara de repetições humanas viciadas?

Sim, quem pode preservar um mínimo de identidade vivendo em tais circunstâncias? Nesse sapatinho de japonesa?

É obvio que os discípulos precisam se reunir..., e juntos devem ter prazer em aprender a Palavra e crescer em fé e ajuda mutua.

Todavia, tal ajuntamento é apenas uma estação do caminho, não o seu projeto; é um oásis, não o objetivo da jornada; é um tempo, não é o tempo todo; é uma ajuda, não é a vida.

De minha parte quero apenas ver os discípulos de Jesus crescendo em entendimento e vida com Deus, em amizade e respeito uns para com os outros, em saúde relacional na vida, e com liberdade de escolha, conforme a consciência de cada um.

O 'ajuntamento' que chamamos igreja deve ser apenas esse encontro, essa estação, esse lugar de bom animo e adoração.

O ideal é que tais encontros gerem amizade clara e livre, e que pela amizade as pessoas se ajudem; mas não apenas em razão de um certo espírito maçônico-comunitário, conforme se vê... ou porque se deu alguma contribuição financeira no lugar.

A verdadeira igreja não tem sócios... Tem apenas gente boa de Deus... e que se reúne e ajuda a manter a tudo aquilo que promove a Palavra na Terra.

Tenho pavor de comunidades!

Elas são ameninantes para a alma, geram vilas de doenças, produzem inibição dos processos de individuação, e tornam os homens eternos imaturos... sempre com medo do mundo e da vida.

Sem falar que em todo mundo muito pequeno, como o da 'comunidade', as doenças tendem a aumentar... e a ganhar caras e contornos de perversidade travestida de piedade...

É o que eu chamo de peidade! Fica todo mundo querendo se meter onde não foi chamado... É um inferno!

Quero ver pessoas que sejam 'gente boa de Deus'; gente descomplicada e desviciada de 'igreja'; gente que aprenda o bem do Evangelho primeiro para si e em si mesmas..., e apenas depois para fora...

Portanto, não se trata de um movimento 'sacerdotal', intimista e fechado; mas sim de um andar profético, aberto e continuo...

Lá não se busca a média da compreensão... Ao contrário, lá se força a compreensão...

Lá só fica quem realmente quer... e não tento jamais dissuadir ninguém ao contrario de sua vontade.

Não há complicação. Tudo é muito simples. E quem não achar que serve, está sempre livre a achar o que lhe agrada em qualquer lugar.

Ou não foi assim que Jesus tratou a tudo no caminho?

A escolha que se tem que fazer é essa: ou se quer uma 'comunidade' que existe em função de si mesma, e para dentro; ou se tem um 'caminho de discípulos', e que se encontram, mas que não fazem do encontro a razão de ser da vida.

A meu ver, no dia em que prevalecer o modelo do 'caminho', conforme Jesus no Evangelho, a vida vai arrebentar em flores e frutos entre nós e no mundo à nossa volta; e as pessoas serão sempre muito mais humanas, descomplicadas e sadias...

Mas se continuar a prevalecer o modelo 'comunitário de Jerusalém'... que de Jerusalém tem apenas o intimismo e o espírito sectário... não se terá jamais nada além do que se teve nesses últimos dois mil anos; ou seja: esse lugar de doentes presunçosos a que chamamos de 'igreja'.

Para isto... para esta coisa... não tenho mais nenhuma energia para doar. Mas para a vida como caminho, ofereço meu coração mais jovem do que nunca.


Caminho da Graça

sábado, 30 de outubro de 2010

As Patologias Crônicas Das Igrejas Institucionalizadas

As Igrejas Pentecostais

Nesta parte da série de estudos sobre As Patologias Crônicas Das Igrejas Institucionalizadas, enfocaremos o que impede as igrejas carismáticas, “avivadas” ou pentecostais, de experimentarem o Cristianismo original, de acordo com a vida da igreja que encontramos no Novo Testamento.

É preciso dizer inicialmente que não faço nenhuma objeção a um mover genuíno do Espírito Santo na igreja em nossos dias. Entretanto, sou da opinião que as igrejas pentecostais colocaram a carroça na frente dos bois. Eles procuram obter o poder do Espírito Santo antes de passarem pela experiência de morte na cruz.

Nas Escrituras, a cruz precede o Pentecostes. O Espírito Santo somente encontra seu lugar de habitação numa vida crucificada.

Começar pelo Espírito ao invés de pela cruz é perigoso para a vida espiritual. Primeiramente porque pode guiar a pessoa a uma busca por poder sem caráter; por experiência mística sem semelhança de Cristo; por excitação da alma sem discernimento espiritual. E os demônios atuam quando não há discernimento.

Muitas pessoas, em sua necessidade de serem tocadas por Deus, se tornam consumidores de todo vento de doutrina ou experiência que sopre sobre a igreja de Cristo (Ef. 4.14). Como conseqüência, muitas pessoas desenvolveram uma dependência doentia de fenômenos e experiências “sobrenaturais”. Esta dependência é semelhante a um vício, e obscurece o papel das Escrituras Sagradas na vida de um crente. Além disso, gera uma insegurança espiritual patológica.

Não digo que o movimento pentecostal seja sem valor para o corpo de Cristo. O pentecostalismo despertou na igreja contemporânea uma genuína fome pelo mover de Deus. Contribuiu para desenvolver uma teologia carismática onde os dons espirituais continuam sendo distribuídos aos membros da igreja. E nos presenteou com vários e belos cânticos de adoração.

Sua falha básica consiste em super-enfatizar a experiência sobrenatural. Em sua tendência de colocar os dons espirituais no trono, ao invés de Cristo – aquele que distribui os dons. E no seu zelo excessivo pelo sistema clerical. Francamente, o pastor de uma igreja pentecostal é o rei. E os membros dessas igrejas possuem pouca liberdade para funcionarem durante um culto.

O “guruismo cristão” também é endêmico nas igrejas pentecostais. “Profetas” poderosos e “apóstolos” são numerosos no movimento. Eles são reverenciados como ícones espirituais, quase possuindo fã-clubes.

Muitos pentecostais têm abraçado com devoção certos fenômenos que possuem pouca ou nenhuma base bíblica. Ao mesmo tempo, eles têm dado de ombros à experiência de vida em uma igreja tipicamente bíblica.

Paradoxalmente, a experiência que muitos pentecostais procuram só pode ser encontrada em uma igreja neotestamentária, orgânica. Quando as pessoas experimentam a autêntica vida no Corpo de Cristo, elas ficam curadas para sempre de seu vício por experiências místicas e de sua síndrome do avivamento. Elas descobrem vitalidade e estabilidade dentro de uma igreja local cativada e apaixonada por Cristo. Aqueles que têm sede de Deus irão encontrá-lo na ekklesia, pois ela é a sua paixão.

Infelizmente, a vida natural da igreja não flui em uma igreja pentecostal institucionalizada. A única esperança para elas é desplugar o clericarismo e conectar-se às Escrituras e às fontes da água da vida.


Igreja Orgânica

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A Importância do Modelo Neotestamentário

Quando Paulo foi confrontado com os que tentavam apartar-se do modelo que ele tinha dado às igrejas, respondeu com inusitada severidade, dizendo:

"Talvez saiu de vocês a palavra de Deus, ou apenas a vocês chegou? Se alguém crê ser profeta, ou espiritual, deve reconheçer que aquilo que vos escrevo são mandamentos do Senhor. Mas se alguém discordar, deixemos ele em sua ignorância." (1 Coríntios 14:36-38)

Nos faria bem recordar que a verdade divina se entende tanto pelo preceito como pelo exemplo.

A verdade espiritual se ensina por meio de proposições éticas, bem como mediante palpáveis demonstrações de sua execução.

Este é o caso em toda a Bíblia, desde as histórias do Antigo Testamento, passando pelos relatos evangélicos até as idas e vindas dos apóstolos no Novo Testamento. Portanto, desestimar os princípios e exemplos orgânicos da Bíblia é trair as doutrinas da Bíblia, e conseqüentemente, perder a realidade espiritual que é inseparável das mesmas.

Surpreendentemente, mesmo que uma igreja troque o modelo neotestamentário por sua própria forma construída por ela mesma, até certo ponto, a bênção de Deus ainda pode permanecer sobre ela. Isto fez com que não poucos cristãos chegassem à conclusão de que os modelos apostólicos não são importantes. Mas não devemos nos enganar crendo que a bênção de Deus está desvinculada de sua aprovação . Por exemplo, a história de Israel contém a sóbria lição de como Deus ainda pode abençoar a um povo que substituiu o propósito divino pelos seus próprios.

Ao longo das jornadas de Israel no deserto, Deus supriu todas suas necessidades em forma sobrenatural, apesar do fato de que Ele estava continuamente enojado com eles, por causa de suas constantes murmurações. O mesmo ocorreu quando os filhos de Israel clamaram por um rei em sua rebelião contra a vontade divina, o Senhor condescendeu a seu desejo carnal (1 Samuel 8:1 e ss.). Apesar disso, Ele seguiu abençoando-os. Não obstante, trágicas conseqüências seguiram a sua limitada obediência (1 Samuel 8:11-18). Israel perdeu sua liberdade sob muitos monarcas maus, e a nação inteira sofreu uma série de juízos divinos devido à apostasía nos montes.

Há um triste paralelo entre a condição de Israel e a de grande parte do povo de Deus hoje, que optou por um sistema religioso atado à terra e manejado por homens.


Frank Viola

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